Real lidera ganho com moedas

Real lidera ganho com moedas

O real passou a liderar o retorno obtido pelos investidores com as chamadas operações de “carry trade”, estratégia em que o investidor toma dinheiro em uma moeda com baixa taxa de juros para aplicar em outra com taxas de juro maiores. Uma conjunção de fatores colocou a moeda brasileira na dianteira: o aumento da taxa Selic em maio, o corte da taxa básica de juros da Turquia, em 24 de junho, a volatilidade controlada da taxa de câmbio e a extensão do programa de intervenção no câmbio pelo Banco Central até 31 de dezembro. O real oferece atualmente uma taxa anualizada de cerca de 11%, ante 8% da rentabilidade de Turquia, Rússia e Índia, e 7% pela Indonésia.

O real lidera os ganhos neste ano diante de um grupo de 17 moedas emergentes, com alta de 6,36% no ano. O índice MSCI de moedas emergentes tem valorização de 2,81% no período e de 6% desde a mínima de agosto. O rali das moedas de países emergentes neste ano tem sido sustentado pelas operações de “carry trade”. Para analistas, essa estratégia continua atrativa no curto prazo, com a sinalização de uma política monetária ainda acomodatícia nos Estados Unidos e na Europa. No entanto, dados econômicos mais fortes nos EUA aumentam o risco de o Federal Reserve (banco central americano) elevar a taxa básica de juros mais cedo que o esperado, o que diminuiria o apetite por economias emergentes.

“O volume de fluxo para mercados ‘high yield’ [que oferecem elevadas taxas de juros] continua firme. A reversão ainda não ocorreu e, enquanto não houver uma ideia clara de que o Fed vai começar a apertar sua política monetária, não acho que esses fluxos para emergentes mudem radicalmente”, diz o estrategista do Citi em Londres, Luis Costa.

Para o estrategista de câmbio para mercados emergentes do Brown Brothers Harriman, Ilan Solot, a baixa volatilidade nos mercados de câmbio, nas mínimas desde 2007, é outro elemento que ampara a demanda por operações de “carry trade”. “Se você tem um diferencial de juros alto num cenário de volatilidade baixa, é difícil não ficar atraído pela arbitragem, porque o ganho é quase certo. Essa história não mudará substancialmente nas próximas semanas.”

Além disso, problemas específicos em alguns países emergentes como Ucrânia, Turquia e Rússia não devem afetar a classe de ativos emergentes como um todo, destaca Viktor Szabo, gestor sênior de investimentos da Aberdeen Asset Management.

O gestor da Aberdeen, no entanto, vê como principal risco para os mercados emergentes o aumento dos juros dos títulos do Tesouro americano (Treasuries) em função de dados econômicos melhores da economia dos Estados Unidos, que podem levar o Fed a antecipar a alta da taxa de juros.

Para o chefe para mercados emergentes em juros e câmbio do Standard Bank, em Londres, Cleber Trindade, o momento não está mais tão atrativo para as operações de “carry trade” com a discussão sobre a elevação da taxa de juros nos EUA voltando à tona nos mercados e a compressão das taxas de juros em muitos emergentes.

Ele vê uma discrepância entre o discurso ainda “dovish” [tendência de afrouxamento monetário] da presidente do Fed, Janet Yellen, e os dados econômicos nos EUA, com a taxa de desemprego em queda e a inflação se aproximando da meta de 2%. “Ou o Fed vê uma desaceleração lá na frente ou deve manter esse discurso para não atrapalhar a recuperação da economia americana.”

Apesar disso, o executivo do Standard Bank não vê uma reversão dessas operações pelo menos até o fim do verão no Hemisfério Norte, em 23 de setembro. Nesse cenário, ele vê mais oportunidade de ganho com estratégias relativas entre o real e outras moedas emergentes como a lira turca e o rand sul-africano, apostando que, em uma guinada de cenário, esses países devem sofrer mais que o Brasil.

O executivo do Standard Bank destaca que, apesar dos problemas macroeconômicos do Brasil, o país está melhor posicionado que outros emergentes. A África do Sul enfrentou uma greve nas minas de platina que afetou o humor dos investidores, enquanto a Turquia se depara com um risco político, além do recente corte da taxa básica de juros, de 9,5% para 8,75% em junho. Do mesmo modo, a Rússia, apesar de ter um quadro melhor em relação à questão fiscal e à conta corrente, vem enfrentando problemas com as sanções impostas pelos EUA e Europa pela anexação de territórios na Ucrânia.

A gestora Aberdeen está com uma posição comprada em taxa de juros no Brasil, mas tem recomendação ‘neutra’ em termos de exposição à moeda. “Os fundamentos apontam para uma depreciação do real, mas o retorno com carry trade ainda é muito alto”, destaca Szabo.

Apesar dos problemas fiscais e da inflação alta, o gestor da Aberdeen vê a aplicação em juros no Brasil como opção atrativa comparada a outros emergentes. A percepção é que o próximo governo deve promover reformas, com a continuidade do ciclo de aperto monetário após as eleições.

Apesar de não ver a possibilidade de um “sell-off” (venda generalizada de ativos no curto prazo), o gestor da Aberdeen destaca que em um cenário de maior aversão a risco, países com problemas no balanço de pagamentos e altos déficits em conta corrente como Turquia e Brasil são os mais vulneráveis. “No entanto, as pesadas intervenções dos bancos centrais de muitos mercados emergentes, como Brasil, Turquia, Índia e Indonésia, devem conter uma depreciação muito acentuada dessas moedas”, destaca Szabo.

fonte:http://www.valor.com.br/

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