Passado, presente e futuro do euro

Passado, presente e futuro do euro

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A Europa estava cansada de guerras, machucada após dois dolorosos e custosos conflitos de grandes proporções. Resolveu então, nos anos 1960, que a solução para evitar novas catástrofes no futuro passava por incrementar a integração socioeconômica no Velho Continente. É esse o espírito do Tratado de Roma, de 1957, e do que brotou a partir dele nas décadas que se sucederam: mais comércio, mais mobilidade entre cidadãos dos diversos países, mais decisões tomadas conjuntamente sobre temas geopolíticos importantes etc. E, para coroar esse processo de aproximação entre os países, no fim do século passado, uma moeda comum, o euro – segundo alguns, o maior experimento civilizatório jamais implementado.

Quando jovem, fui forte defensor do euro, um apaixonado que era por uniões monetárias, que são de fato uma construção econômica fascinante. Creio, hoje, mais velho e observando de perto o que ocorre com as economias da zona do euro, que os europeus deveriam ter parado antes, na integração comercial e dos mercados de trabalho (que, a propósito, não são nada integrados). O passo adicional, a criação do euro, foi, a meu ver, um erro – um erro romântico e, possivelmente, irreversível.

Concentremo-nos por uns instantes nos benefícios econômicos de uma moeda comum. Quais são eles, efetivamente? Resposta: redução de custos de transação, que vale para todos os integrantes da união; e credibilidade monetária, que é um ganho para aqueles países da união com dificuldades crônicas no lidar com a inflação interna.

Veja o que uma moeda comum faz: ela extingue a existência de uma taxa de câmbio traduzindo preços de um pais para a unidade de conta de outro. De fato, como essa taxa de câmbio tipicamente oscila demais, muito mais do que o resto das variáveis econômicas, por sinal, comercializar sem ela é mais fácil: comprar e vender mercadorias e serviços na mesma moeda facilita a vida tanto de exportadores como de importadores, potencializando assim o volume de comércio fluindo entre as fronteiras dos membros da união. E os dados e a análise empírica sugerem que isso não é mera conjectura teórica: países que adotam uma mesma moeda transacionam mais entre si, isso já isolando o efeito de todas as outras variáveis que normalmente afetam os fluxos comerciais entre as nações, como distância, tamanho, existência de uma fronteira comum, de uma língua comum etc. Como o comércio é um importante motor do desenvolvimento, temos aí um beneficio relevante.

E a credibilidade monetária?

O Banco Central Europeu (BCE) foi institucionalmente desenhado à feição do Bundesbank alemão, um cão de guarda treinado para combater a inflação a quase qualquer custo. Nesse sentido, a localização da sua sede é simbólica: Frankfurt. Por conta dessa reputação anti-inflacionária, no momento em que um país decide abrir mão da sua politica monetária interna, entregando-a ao BCE, o gerente do euro, ele está adquirindo um seguro contra inflação para todo o sempre. Num passe de mágica, a máquina de impressão de moeda desaparece das mãos do governo nacional, tornando-o incapaz de imprimir dinheiro para fechar rombos nas contas fiscais ou praticar populismos expansionistas de curta duração. Some-se com o truque inflacionário, ganha a população. Para espanhóis, portugueses, italianos, gregos, fazia todo sentido “importar” essa credibilidade e liquidar com a inflação num piscar de olhos. Ou não?

Precisamos falar de custos, pois, afinal, nada nessa vida vem de graça. E uma moeda comum envolve custos econômicos importantes, que, no meu entendimento, suplantam mesmo os benefícios discutidos acima. Não poder acionar a politica monetária quando isso é necessário, e fechar completamente o canal do câmbio dificulta sobremaneira o ajuste de uma economia atingida por choques adversos. Quando bate uma desaceleração da atividade econômica porque o preço dos bens que o país vende no exterior declina por algum motivo, o ideal é que se reduza rapidamente a taxa de juros e que se permita uma perda de valor da moeda frente a moeda dos parceiros comerciais. Ambos os movimentos contrabalançam a queda inicial deflagrada nos investimentos e nas exportações. Em outras palavras, juros reduzidos e taxa de câmbio mais depreciada funcionam como verdadeiros amortecedores, minimizando o impacto do choque negativo sobre o PIB e sobre o emprego. Mas, claro, com uma moeda comum, não há nem taxa de câmbio nem possibilidade de se reduzir juros – eles são decididos lá em Frankfurt. E Frankfurt só reduzirá o juro se a desaceleração for algo comum a um número elevado de países de toda a região. Ele é o Banco Central de todos e, portanto, problemas localizados, idiossincráticos, não contam. Mas contam para o país em questão, claro, que fica de mãos quase totalmente atadas frente a dificuldades que não sejam comuns aos outros.

A Califórnia, ou o Texas, também às vezes enfrentam problemas econômicos que não dizem respeito ao restante da economia dos Estados Unidos. E o Banco Central daquele país não vem, nesses casos, em socorro. Califórnia e Texas poderiam reagir melhor a crises localizadas se tivessem bancos centrais e taxas de câmbio independentes. Então, em que dimensão esse par é diferente do par Portugal-Itália?

Em duas importantes dimensões.

A primeira diz respeito à mobilidade do fator trabalho. É muito mais fácil para alguém que perdeu seu emprego na Califórnia migrar e encontrar outro em Chicago, por exemplo. É um país só, não se cruzam fronteiras, e fala-se a mesma língua. Já para um português desempregado, achar uma vaga na vicejante Frankfurt é bem mais difícil. Só para começar, ele precisará aprender alemão! Isso significa que um choque adverso que atinja a economia da Califórnia não é tão problemático assim e, portanto, o Estado pode abrir mão de ter moeda e taxa de câmbio próprias; ao passo que um choque negativo que atinge a economia de Portugal precisaria ser tratado com solução mais caseira mesmo, dada a dificuldade em se encontrar um novo emprego na Alemanha.

A segunda diferença se localiza no âmbito da politica fiscal. Quando o crescimento da economia californiana enfraquece e o desemprego se eleva, o governo central pode ajudar na recuperação, custeando gastos com seguro-desemprego, por exemplo, ou transferindo mais recursos para o governo local seguir pagando seus funcionários em dia ou até mesmo tocando investimentos públicos em infraestrutura. Quem paga impostos em Chicago ajuda o contribuinte da Califórnia na dificuldade, em troca de o da Califórnia ajudar o de Chicago quando o choque adverso muda de endereço. Afinal de contas, são todos americanos, todos cantam o hino no dia 4 de julho.

Os países da zona do euro, apesar de terem um Banco Central comum, não estão sob o guarda-chuva de um único poder fiscal. Este é de âmbito estritamente nacional, e me parece que o alemão de Frankfurt não aprovaria um sistema fiscal único que transferisse recursos de seu suado imposto para um português desempregado no Além-Tejo. A questão é espinhosa politicamente, e o mais importante no âmbito da discussão aqui é que, sem uma politica fiscal comum, o ajuste a choques fica mais dificultado ainda: o alemão não paga pelo seguro-desemprego do português. Na verdade, é até mesmo pior do que isso, pois o tratado que deu origem ao euro, além de tudo, interfere na política fiscal dos países-membros, engessando-a. Por quê? Para impedir que eventuais farras fiscais desemboquem em pressão por relaxamento monetário futuro. Ou seja, na tentativa honesta de isolar o BCE de pressões provenientes de países lenientes em termos fiscais, a lei que deu origem ao euro gera o efeito colateral de dificultar aumentos de gastos públicos quando são necessários no combate a recessões econômicas localizadas.

Veja, portanto, que no frigir dos ovos a moeda comum, ao tornar difíceis os ajustes a choques econômicos adversos e localizados, pode acabar acentuando a tensão entre os países-membros, ao invés de atenuá-la. O famoso tiro pela culatra.

Carlos Eduardo Soares Gonçalves, professor titular de economia da FEA-USP e autor de “Economia Sem Truques” e “Sob a Lupa do Economista” (Campus), escreve neste espaço quinzenalmente

E-mail: cesg73@usp.br

fonte:http://www.valor.com.br/

 

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